Entry: Um país dividido? - reflexões pós-eleições 1.11.06



O clima que se criou entre o primeiro e o segundo turno foi medonho, e acho que aqui em São Paulo foi pior. Mesmo sendo maioria no país, aqui os eleitores do Lula prudentes evitavam falar em voz alta, meu marido achava que eu nem devia usar minha estrelinha do PT pra ir votar, com medo de alguém arrancar meu dedo com uma mordida! (risos)

A coisa ficou tão estranha que eu mesma votei no Lula no segundo turno me sentindo muito diferente de quando votei nele no primeiro. Votei no primeiro turno querendo mais evitar o segundo turno e a possibilidade de uma vitória do Alckmin, porque na verdade eu ainda não estava certa se queria votar no Lula ou no Cristóvam Buarque. No segundo turno, a imprensa (pelo menos a parte marrom dela) e o PSDB me fizeram de novo uma apaixonada eleitora do PT. Esta reportagem da Carta Capital ilustrou com fatos concretos a sensação irritante que eu já tinha. Pra mim parecia desde o princípio muito claro que os Sanguessugas existiam desde o governo anterior, mas por que a Globo não falava disso? Pra mim também parecia bastante claro que não era bonito comprar dossiê contra os adversários políticos, mas provavelmente o que compunha o dossiê também não devia ser nada bonito. Mas quem se interessou por essa parte? O Jornal Nacional jogou nomes e fatos como uma metralhadora, mesmo em detrimento de fatos extremamente mais importantes como a queda do avião da Gol...

Duas coisas me irritavam muito: 1) presumir que o eleitorado brasileiro é tão facilmente manipulável (e não é, as urnas provaram); 2) muitos eleitores do Alckmin realmente serem ingênuos ou burros o bastante pra acreditar que, num país como o nosso, possa realmente haver um abismo moral tão grande entre dois partidos políticos, a ponto de eu ter visto um adesivo num carro que dizia: "o bem sempre vence o mal. Geraldo Presidente". Fala sério. É leseira demais pro meu gosto. Se eu sei que no meu partido há corruptos e honestos, sei também que nos outros partidos é a mesma coisa. Como é que se pode mesmo acreditar que este governo seja o mais corrupto da História? Na ditadura sequer sabíamos o que acontecia!

Eu também não compro o discurso do Lula quando ele diz que ele quer investigar tudo. Se o governo pudesse, tivesse tido base suficiente, teria com certeza barrado muitas dessas CPIs. Bom pra nós que não conseguiu. Mas se qualquer um quiser pesquisar poderá ver quantas foram barradas nos governos federais do FHC e estadual do Alckmin. Quem não deve não teme, certo? É fácil não ser corrupto assim.

Outro aspecto que me chamou muito a atenção foi o poder do pobre. O Lula venceu por causa dos pobres, e quem precisa mais que eles eleger um presidente? Pô, gente, alguém acha que o Brasil tem algum problema que seja mais grave, urgente e cruel que a desigualdade social? De que me serve um país que cresça 10% ao ano pra 10% da população? A mim não satisfaz. Eu ouvi uma pessoa dizer que estava escolhendo seu candidato (ao governo estadual, no caso) porque seu emprego dependia disso. Se os eleitores só pensam em si mesmos na hora de votar, por que acham que podem esperar que os governantes não façam o mesmo?? Os políticos são tão gente quanto nós, tão brasileiros quanto nós e saem da mesma sociedade que nos pariu.

E o Alckmin demorou a perceber o poder do voto do pobre. Só no finzinho da campanha ele estava falando pra quem não votava nele, porque antes o tempo todo ele só fazia campanha de fidelidade, sabe? Só falava o língua dele, dos que já eram eleitores dele. E quem tá perdendo não pode se contentar com isso. Na última semana de campanha tinha gente distribuindo adesivo e bandeira do PSDB em Higienópolis! Minha gente, isso faz algum sentido? Aliás, a votação do Alckmin em São Paulo sempre foi uma coisa que me bestificou. Fui só eu que fiquei com medo do PCC? Pra mim sempre pareceu que a pior votação deveria ser aqui, mas vai entender o eleitor paulista. Eu não entendo.

Só tem uma coisa que eu entendi a respeito do eleitorado paulista (ou paulistano, sei lá), e foi uma coisa que me deixou muito triste. Eu sou paraense, de Belém (fica no Norte, e não no Nordeste, como tive que ouvir um monte de vezes aqui em SP), e moro aqui desde 1998. Gosto e não gosto, acho que como em qualquer lugar. Mas sei que existe preconceito. Vi algumas expressões surpresas ao longo desses 8 anos de pessoas que achavam improvável que uma moça bonita, branca, inteligente, poliglota, educada, informada e que fala muito bem o português pudesse vir de Belém do Pará (ou de qualquer lugar lá de cima). "Nossa, você aprendeu francês em Belém?"; sim, e inglês, alemão, italiano e, principalmente, português (até onde eu sei o segundo melhor do Brasil, só perde pro falado no Maranhão, nosso vizinho). Minha melhor amiga, paraense (aliás de família maranhense) ouviu no ônibus uma senhora falando que o Lula só ganhava no Norte e no Nordeste, porque no Sul e no Sudeste, "onde a gente é mais cabeça"... Dá pra acreditar?? Fiquei revoltada! Na segunda-feira, no Bom Dia Brasil, até o Alexandre Garcia disse que o eleitorado do Lula é "menos esclarecido"!

O fato de a pessoa ter estudado menos não significa que a visão política dela é inferior à minha ou à sua. Me lembro de uma discussão acalorada numa aula da faculdade porque uma professora (muito jovem e iludida) achava que o sorveteiro tinha menos consciência política que todos nós ali dentro da sala de aula. A bichinha quase foi linchada. A democracia só prova uma coisa: os votos têm todos o mesmo valor, meu bem.

P.S.: Sobre o país dividido, a Veja incentiva com esta capa; a Istoé, mais responsável, nos chama à razão com esta, na mesma semana. Se o país se dividir, somos todos que teremos de agüentar o rojão de um governo engessado...

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