No clássico caso em que os dois amigos Sherlock Holmes e John Watson se conhecem, o mistério é de arrepiar. O caso é utilizado para nos dar o esquema geral do método de dedução de Holmes, e uma das frases que resume sua lógica: elimine tudo o que é impossível, e o que sobrar, por mais improvável que seja, é a verdade. Ele se define como detetive particular
consultivo, ou seja, ele é acionado pelos próprios investigadores policiais quando estes não sabem mais o que fazer.
O caso tem todos os elementos que eu adoro: uma morte misteriosa, numa casa abandonada, com uma mensagem escrita na parede com sangue. Holmes entra no local do crime como um cão perdigueiro, com mil olhos, que veem todas as pegadas e os traços deixados no chão, na lama, analisa as cinzas de cigarros, charutos, de cujos vestígios consegue depreender as marcas com facilidade, medindo a altura do suspeito só pela distância entre os passos, usando e abusando de sua lente de aumento. Esses são os métodos mais característicos de Holmes (métodos que Poirot abomina, mas isso é assunto pra outro post).
Holmes e sua lente de aumento "estudando" a inscrição na parede: "Rache".
Nesse caso podemos verificar uma das diferenças mais notórias entre Conan Doyle e Agatha Christie. De fato é impossível matar a charada sozinho. Holmes, ao longo do caso, tem acesso a informações que não nos passa, pois vemos o caso pelos olhos de Watson. O máximo que podemos fazer é nos deixar despertar por algumas pequenas pistas que podem ser importantes, como um telegrama dizendo "J.H. está na Europa".
Mas uma diferença importante entre os dois autores e os dois tipos de romances policiais: Agatha Christie faz o tipo de trama "whodunit", e Conan Doyle, não. O que mais importa é descobrir quem fez, e nem sempre isso é o aspecto central dos casos de Sherlock Holmes. Descobrir o como, o onde está o assassino, pegá-lo, impedir o pior, tudo isso pode se tornar o ponto do caso de Holmes.
No Estudo em Vermelho, a narrativa meio deslocada que surge no meio da história explica o que jamais poderíamos descobrir. A triste história que se passa no Utah embeleza e romanceia o crime sórdido e feio. É longa, mas não acho cansativa (a do Signo dos Quatro, contada por Jonathan Small, eu acho mais chata), e dá um colorido diferente e inusitado à trama londrina. Um Estudo em Vermelho é absolutamente imperdível para quem quer descobrir Sherlock Holmes.
Brigham Young: um dos fundadores da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Ele faz uma "guest appearance" nada lisonjeira na narrativa de Jefferson Hope sobre os acontecimentos que precederam o crime.
p.s.: A filha de Conan Doyle disse: "You know father would be the first to admit that his first Sherlock Holmes novel was full of errors about the Mormons." Não dá pra levar ao pé da letra o que é dito ali sobre os mórmons. É uma obra de ficção, não custa lembrar.