Quarto escuro...



23.11.09
O filho do Brasil e da dona Lindu

Vocês lembram do Lech Walesa? Eu tinha 12 anos quando ele foi eleito presidente da Polônia. O mundo todo achou um feito memorável um sindicalista ser eleito presidente, e o cara rapidamente virou um símbolo.

Só porque era na Polônia, meu bem, lá beeeem longe do Brasil riquíssimo, elitizadérrimo, onde uma patuscada como essa jamais poderia acontecer. Um sindicalista acabara de ser derrotado nas urnas por um mauriçola corrupto, com a desesperada ajuda dos maiores meios de comunicação do país.

Agora fizeram um filme sobre o Lech Walesa..., quer dizer, sobre o Lula! Sabe o Lula? Presidente do Brasil, galera, reeleito, recordes de aprovação (dentro e fora das fronteiras nacionais), o cara que está fazendo o povão subir à classe média, o cara que trouxe Copa, Olimpíadas e fim-do-mundo-de-cinema-americano (vide filme 2012) pro Brasil. O cara. E não fui eu quem disse, foi o Obama.

E todos os chatos direitistas recalcados dor-de-cotovelo de plantão estão criticando o filme por ser eleitoreiro. Cuma? E por um acaso o Lula será candidato? Não, né? Então pensem cá comigo.

Eu ouço falar na ideia de se fazer um filme sobre a vida do Lula há alguns anos. Alguém vai achar que não é um personagem gigante? Por mais que vc não goste da política que ele faz, reconheça: é uma história incomum. O cara era torneiro mecânico e virou presidente do país. Ok, vale um filme, né?

E sobre o momento do filme? Meus filhos, deixem de ser chatos e reconheçam que seria muitíssimo pior se fosse lançado, por exemplo, antes da reeleição, concordam? Não que ele tivesse precisado disso, pois conseguiu tirar votos de seu adversário do primeiro pro segundo turno (certo, Geraldinho?). Se fosse naquele momento, pegava mal, né? Mas vcs tb não querem que um cara faça um filme e espere passar o momento de auge da vida do seu personagem principal pra lançar o filme só quando a oposição achar que não vai mexer nas idéias do povão.

A verdade é que se vc gosta do Lula, vai ficar gostando. Se não gosta, idem. O filme não vai mudar grandes coisas. Eu gosto, como obviamente dá pra ver.

Eu não quero falar agora dos filhos do FHC e nas babaquices que ele andou dizendo sobre ditadura populista do Lula, e nem sei se perderei meu tempo com isso mais tarde. Afinal o FHC não manda mais em nada. Sabia que só 16% dos eleitores votariam em um candidato indicado por ele? Pois 50% votariam num candidato indicado pelo Lula. E antes de verem o filme.

Se liga, oposição. Perdeu, playboy, perdeu.

Os novos (e horrorosos!) produtos de mulherzinha

Vocês já notaram o que andam tentando vender pras mulheres nos intervalos comerciais? Vivemos um boom de laxantes e sabonetes íntimos como nunca vi igual.

No caso dos laxantes, são anunciados em comerciais nos quais são praticamente equiparados a um bom antidepressivo tarjinha preta, de tão feliz que a pessoa fica quando vai no banheiro (toca até Danúbio Azul de fundo musical). Feliz E bonita, pois pra Patricia Travassos (eu me recuso a escrever o nome dela naquela ginástica numerológica que ela inventou) é muito normal encontrar uma amiga no supermercado e dizer: "Você tá bonita, hein? E o intestino?" Hã??? Você tá querendo saber se eu fiz cocô hoje, Patricia, é isso? Vê se aparece algum homem ali naquela propaganda querendo tomar iogurte pra fazer cocô e ficar BONITO. E homem lá tem que ficar bonito? Isso num é coisa de macho.

Os sabonetes íntimos, além de se encaixarem com perfeição no que disse a Lola no post sobre o carefree e otras cositas más (resumindo: vender produto pra mulher é muito fácil. Basta inventar um defeito NELA e vender a solução), ainda têm o agravante de diluir o que a natureza sabiamente preparou para nós: os feromônios, suas lesas! Feromônios estão ali pra atrair a macharada, e vocês ficam aí, temperando vosso sagrado cheiro com dermacid e femina. Fazendo da essência feminina um refresco aguado e diluído com cheiro de sabonete sem cheiro. Se o cheiro fosse ruim como tentam nos convencer não existiria sexo oral, ô criatura, e os homens (e mulheres que gostam de mulheres) estariam tomando dermacid de canudinho, em vez de estarem fazendo coisa melhor (e espero que seja com você, pra sua felicidade). Ou seja, fiquem aí corrigindo toda a natureza que, num ataque de Emília, o mundo resolveu achar que está errada, mas depois não venham reclamar que estão sozinhas e mal-comidas, que é difícil ser mulher por TEM que fazer escova, TEM que fazer as unhas, TEM que se depilar toda semana, TEM que tomar activia, TEM que fazer dieta, TEM que ser magra, TEM que se maquiar, TEM que usar meia-calça, TEM que lavar as partes com dermacid. Ao menos entendam que estão fazendo escolhas, e não seguindo regras.

[neste post estou "conversando com as idéias da Lola", e acho que vou fazer isso muitas vezes doravante...]

14.11.09
O fracasso e a lição de humildade

"- Watson, se alguma vez notar que estou muito confiante em minhas possibilidades, dando a um caso menos atenção do que ele merece, tenha a bondade de segredar em meu ouvido 'Norbury', e eu lhe ficarei eternamente grato."

Sherlock Holmes, A face amarela, em Estrela de Prata

"- Sapristi! É melhor até nem pensar neste caso! Esqueça-o! Ou melhor, não o esqueça. E se algum dia achar que estou me tornando por demais presunçoso... o que não é provável, mas pode acontecer...
Disfarcei um sorriso e Poirot acrescentou:
- Eh bien, meu amigo, basta dizer-me 'Caixa de bombons'. Combinado?"

Hercule Poirot, A caixa de bombons, em Poirot Investiga

Qualquer semelhança não deve ser mera coincidência, concordam? ; )

Pois é isso, os dois maiores cérebros detetivescos da ficção não só tiveram seus momentos de fracasso como ambos julgaram que o fracasso poderia ser educacional, e pediram a seus companheiros (e, por assim dizer, "biógrafos"!) que lhes fizessem o favor de lembrar-lhes do episódio a fim de que o sucesso não lhes subisse à cabeça.

Funcionou?

Confira na continuação da cena de Poirot.

"- Negócio fechado!
- Mas, no final das contas, foi uma boa experiência - murmurou Poirot, pensativo.  - Eu, que indubitavelmente possuo o melhor cérebro da Europa na atualidade, posso dar-me ao luxo de ser magnânimo!
- Caixa de bombons - falei, gentilmente.
- Pardon, mon ami?
Olhei para o rosto inocente de Poirot, inclinado em minha direção, com uma expressão inquisitiva. Senti um aperto no coração. Sofrera muitas vezes nas mãos dele. Mas eu também, embora não possuísse o melhor cérebro da Europa, podia dar-me ao luxo de ser magnânimo.
- Nada - menti. E acendi novamente o cachimbo, sorrindo para mim mesmo."

É verdade que, em Poirot, esse pequenino exagero de porte do ego é infinitamente mais visível que em Holmes. Acho que Holmes lida com seu talento muito mais como técnica do que como dom. Não resta a menor dúvida de que é um dom, mas pra ele é algo tão natural que ele parece pensar que todas as pessoas devem estar vendo as mesmas coisas que ele, com a mesma clareza. Aliás, às vezes a naturalidade com que ele fala daquilo que deduz do que observa já é suficiente pra parecer arrogância.

Poirot é muito mais claro que isso. Para ele é absolutamente óbvio que o que ele conclui (porque Poirot não observa nem deduz, vocês sabem. Ele pensa e conclui) só ele é capaz de concluir. E não se furta a deixar bem claro o quanto sabe da incapacidade dos outros. Especialmente de Hastings. Coitado.

6.11.09
A fofíssima e o componente "ira"

Tem duas coisas que vcs precisam saber sobre mim:

1) eu sou viciada em tv, tipo, no barulho. A tv fica ligada quase o dia todo, mesmo q eu esteja fazendo outra coisa.

2) tô sem grana desde o começo do ano, ou seja, sem tv a cabo.

Resultado, tô me virando basicamente com Globo, porque aqui em casa a concorrência é injusta, em virtude da péssima definição dos outros canais (vejo Cultura pra ver os jogos do Paysandu, mesmo com imagem ruim, e Band domingo de noite, que tem Bola na Torre e eu amo o meu tio Guilherme Guerreiro).

Aí eu acabo vendo essa novela das oito que eu acho horrível, a pior do Mané (Carlos). Aí que tem uma personagem chamada Paixão (ui!) que é a boazinha. Ok, eu não vejo muito problema em fazer personagens fictícios com papéis simplificados, é entretenimento, não sociologia nem psicologia tampouco antropologia (embora às vezes extrapolem). Mas pra falar a verdade, eu não achei ainda ela chata. Até agora me pareceu um tipo de boazinha possível, daquela q sofre pq gosta do namorado da amiga. E aí tem a sócia do carinha (a moça da franjinha torta), que tb gosta dele, e que odeia boazinha-estagiária. E sabe pq ela odeia? Sabe qual é o argumento dela? Ela é fofa. Fofíssima.

Ser bom pode ser ruim, ser bom demais às vezes é suficiente pra vc ser mal-visto. As pessoas boas demais não têm graça, e eu vou te dizer que não sei o quanto discordo disso, só tô falando pq me dei conta, entendem? Será q eu tb sou assim? Será q eu tb não gosto dos bons?

Outro dia eu tava pensando numa pessoa que sofre muito com o que os outros pensam dela, sofre com o que espera deles, sofre quando agem de maneira cruel com ela, sofre, sofre, sofre. Acho que ela nunca fica com raiva. Meu instinto primeiro era de tentar defender essa pessoa, mas depois fiquei pensando. Essa pessoa é adulta e precisa aprender a se defender, ela não pode só sofrer, só ser boazinha. Falta-lhe o componente "ira".

Em mim não falta (só me esforço pra que não sobre). Quando alguém me ataca, mesmo que seja alguém que amo, eu jogo as orelhas pra trás e eriço a pelagem. Tenho argumentos que justificam o modo com ajo e penso, e quando o meu eu é atacado, eu me inflo de minhas razões pra me defender. E me defendo.

E olha que na maioria das vezes eu não uso a ira na minha defesa. Mas a ira me ajuda a pensar: "ei, quem essa pessoa pensa que é pra agir assim comigo?", em vez de "ai, não acredito que fulano me disse isso..." e morrer de chorar e sofrer. Peraí, meu nêgo, que papagaio não é pelicano! E a minha prova de amor ultra-máxi-méga-master-blaster é chamar o nêgo ou a nêga na chincha e dizer: nêga, tu me magoaste quando fizeste assim ou disseste assado.

Eu tenho uma amiga, a minha mais perfeita e mais minha amiga, a minha amor, minha mulher da minha vida, que entende o mundo tão bem, mas tão bem de tudo, que o dia que fiz isso com ela, porque tinha me irritado loucamente com uma série de atitudes dela, no dia que chamei a nêga na chincha, ela pegou e me disse: "égua (a gente diz égua na minha terra, tá?), eu tô entendendo. Que bom que tu vieste me dizer isso, eu tô tão feliz!" Cara, ela entendeu!! E era isso mesmo, eu a amava demais pra ir guardando raivas, mágoas e sofrimentos entre nós, aquilo não podia nos manchar.

Onde foi mesmo que eu comecei? Sim, na Paixão boazinha! Enfim, boazinha, a princípio, não me incomoda por si só. Mas só espero que a Paixão não careça do componente ira, porque senão vai ser ruim é pra ela.

5.11.09
Ofensa e discriminação dormem no berço esplêndido da liberdade de expressão na Internet

Qual das alternativas abaixo está correta?

a) "Ser gordo devia ser crime inafiançável."

b) "Ser cego devia ser crime inafiançável."

c) "Ser velho devia ser crime inafiançável."

d) "Ser deficiente físico devia ser crime inafiançável."

Nenhuma. A alternativa correta é: "Discriminação É crime inafiançável."

Mas eu li a letra "a)" hoje no twitter, de uma pessoa conhecida de alguns anos. E isso me fez pensar.


A liberdade de expressão na Internet é indiscutível, mas as pessoas têm uma certa dificuldade de diferenciar gostos pessoais de opiniões que podem ser ofensivas e discriminatórias. Dia desses andei por um blog de um gato (um gatinho-miau mesmo) bem cri-cri, ou seja, de um personagem criado por alguém, e o tom dos posts é claramente de comédia. Por exemplo, o gatinho acha Crepúsculo chato. Aí um monte de adolescentes descasca nos comentários, xingando o gatinho com palavras de baixo calão mesmo, e dizendo que Crepúsculo é maravilhoso.


Peraí. Ele não pode não gostar do mesmo filme/livro que você? Eu acho que os adolescentes podem sim fazer os comentários que quiserem, isso também é a liberdade de expressão, e é claro que o gatinho sabe que está sujeito a isso (tanto que os comentários são moderados e mesmo assim estão ali, dezenas de comentários xingando o felino). Eu só acho que não precisavam levar isso tão a sério, como se precisassem converter o mundo inteiro a uma seita adoradora de Crepúsculo. Em tempo: eu gosto de Crepúsculo, li todos os livros.

Mas aí tem o outro lado. Se vc faz um texto discriminatório no twitter ou em um blog contra um grupo, ainda que não tenha sido diretamente contra mim, se eu fizer parte desse grupo eu tenho sim o direito (senão o dever) de me defender, de defender essas pessoas, que foram criticadas por terem uma determinada condição física ou de saúde, por exemplo. Respostas do tipo "se eu não puder reclamar no meu twitter, onde mais eu posso?" me dão vontade de dizer: "num diário secreto, onde vc possa dar vazão a toda a sua cretinice e babaquice sem ofender ninguém".

A Internet É pública, não adianta vc fingir que não é ou se comportar como se não fosse. O twitter não é o seu diário, e se vc continuar agindo como se estivesse falando sozinho, pode acabar perdendo não só seguidores, mas admiradores, contatos, potenciais amigos e até clientes. E vc está na Internet justamente porque ela é pública, pq se vc não quisesse isso, estaria escrevendo no seu diário. Então por que tem gente que protege os tweets??

Ok, aí a pessoa em questã poderia me dizer: eu protejo os tweets pq quero que só algumas pessoas leiam. Ah, mas vc me autorizou, então deveria saber que estaria me ofendendo ao dizer que "ser gordo devia ser crime inafiançável", já que me conhece pessoalmente e sabe que eu sou obesa.

Dizem que só no twitter é q vc conhece realmente as pessoas. Pode ser. O fato é que é justamente ali que vc pode saber quem com certeza lê tudo o que vc escreve. E deveria, se fosse esperto, prestar atenção ao que diz (a não ser que sua intenção seja mesmo ofender, daí ok). Exemplo: uma pessoa que vive da Internet, que ganha seu dinheiro através de um site e que mantém contato com seus clientes (espalhados por todo o país) via e-mail. Essa pessoa tem um twitter, e o utilizou para criticar o modo de falar de um cliente, minutos depois de esse cliente (eu!) ter deixado um comentário em seu site elogiando seu trabalho. Eu não deixei de achar bonito o trabalho da pessoa, mas passei a achá-la menos esperta por não se importar de se indispor com alguém que elogia(va) o seu trabalho e que a ajudava a pagar as contas, até mesmo divulgando seu site. Só parei de ficar elogiando, pq achei q ela já devia ter ouvido tanto elogio na vida q já não dava mais o devido valor.

Resultado do episódio do "inafiançável" de hoje: a pessoa me deu uma resposta grossa, me dizendo pra dar unfollow. Eu dei. Eu digo a vcs que eu nem ia fazer isso antes, pq pra mim twitter não é orkut, e eu não sigo só gente que eu amo & adoro, mas gente que posta coisa que me interessa. Mas se a minha sombra gorda tava atrapalhando a visão na lista de seguidores dela, então tchau.

27.10.09
Mr. Harley Quin

Doze capítulos praticamente independentes, cada um contando um dos encontros estranhos entre o bem-relacionado Sr. Satterthwaite e o "misterioso Sr. Quin", e eis o nome do livro que apresenta uma amizade singular.

Satterthwaite é um observador, um conhecedor das pessoas. Conhece muita gente, e as percebe bem. E ele sabe que, quando Quin aparece, algum drama humano está se formando. Às vezes algo novo (O sinal no céu), outras vezes um velho mistério que os muitos anos passados ajudam a resolver (A chegada do Sr. Quin; Na estalagem Bells e Motley), segundo a teoria de Quin. Satterthwaite sempre fica com a impressão de que é Quin o personagem principal, aquele que orquestra a solução do drama, e que ele próprio não passa de um instrumento. Será?

Além de um livro inteirinho dedicado a essa inusitada relação, há ainda um conto, a fascinante história final de "Poirot e o mistério da arca espanhola & outras histórias". O conto chama-se " O jogo de chá do Arlequim", e é dos melhores.

25.10.09
L'Aiguille Creuse + Arsène Lupin

Arsène Lupin, le gentleman-cambrioleur. Conhecem?

Arsène Lupin é um ladrão finíssimo, especializado em coisa de rico, jóias, artes em geral, papa fina mesmo. Criação do francês Maurice Leblanc, que inventou o termo que hoje é usado para designar um ladrão de alta classe que não usa de nenhuma brutalidade. Um cavalheiro ladrão, um ladrão cavalheiro.


Eu li meu primeiro Arsène Lupin há muuuuitos anos, nem sei onde está esse exemplar, que acho que era do Arsène Lupin, le gentleman cambrioleur (Br: Arsène Lupin: Ladrão de Casaca). E poucos anos atrás li de seguidinha os dois volumes de "813": "Le double vie d'Arsène Lupin" (A vida dupla de Arsène Lupin) e "Les trois crimes d'Arsène Lupin" (Os três crimes de Arsène Lupin). Encantei-me novamente pelo personagem, que é aliás um sedutor de mulheres. Mas ele não é um safado, não se engane. Ele as respeita, admira, e ele se apaixona de verdade, e sofre e tudo! Lembre-se de uma coisa: Arsène nunca mata.

Outra característica importantíssima do personagem é seu talento incrível para disfarces. E não simplesmente disfarces, mas pseudônimos, ou ainda heterônimos, vidas duplas, triplas, enfim. As personalidades de Lupin infiltram-se na alta sociedade sob os nomes e nacionalidades mais diversos, criam relações, fama, enquanto Arsène continua agindo. O tempo que ele é capaz de dedicar à formação de um bom heterônimos é tocante. E geralmente nos engana. Numa mesma obra podem aparecer mais de um heterônimo. Um bem óbvio, outro que nos choca totalmente quando revelado (caso que aconteceu comigo tanto em 813 quanto em L'Aiguille Creuse).

E aí chegamos em l'Aiguille Creuse (A Agulha Oca). Incrível!! Além do gênio de Lupin, somos apresentados ao gênio em formação do jovem Isidore Beautrelet, que representa rival de altura respeitável, notoriamente digno da admiração de Lupin (de quem Isidore é fã confesso antes de se tornar opositor, sem nunca deixar de ser fã, claro). Do meio pro final, quando nos aprofundamos no mistério secular (milenar!) da Aiguille Creuse, vão surgindo conexões com vários períodos da história da França. Adoro! Mistério com mensagem cifrada pra desvendar, estilão clássico muito bem-feito. Imperdível pra quem gosta de uma boa literatura de mistério.


Voilà! A foto acima mostra as falésias da cidade de Étrétat e o pico branco e rochoso de base submarina que dá título ao romance. Beleza natural bem empregada pelo talento literário.

No embalo, resolvi alugar o filme Arsène Lupin, de 2004. Sem enrolação, digo logo: ruim. Bom elenco, na verdade, mas a colagem de histórias (Aiguille Creuse + La comtesse de Cagliostro (A condessa Cagliostro) + Gentleman Cambrioleur + referências a 813 e provavelmente a outros livros de Arsène que ainda não li) resultou num roteiro feio e sem fio condutor. A personalidade do anti-herói na literatura, como de praxe, é simplificada para as telas e perde muito da graça. Ou seja: ruim.



Agora tô mais a fim de achar os desenhos animados e a série de televisão. Aliás, vc sabia que, em 1957 Arsène Lupin virou até telenovela brasileira, da TV Tupi?

Onde está a latinidade?

Será que é só porque a gente é muito grande? Ou porque a gente fala português, e não espanhol?

Nas últimas semanas, aliás, acho que desde que morreu Mercedes Sosa e fiquei numas de ver vídeos dela no youtube, tenho me perguntado exaustivamente onde está a latinidade deste país. Eu sempre lembro de uma professora de antropologia que me fez perceber uma curiosa característica deste nosso país.

Em antropologia, há o Eu e há o Outro, certo? O caso é que na América Latina hispanófonos, ao rever a História, a população identifica-se como o Eu índio, e o Outro é o europeu. Aqui no Brasil, o índio é que o Outro. Ok, é possível que, pelo tamanho do Brasil, a densidade populacional indígena fosse menor, eles fossem mais espalhados, e hoje no fenótipo brasileiro há mais cara de mistura de branco com negro do que com índio (se nos compararmos a peruanos, colombianos, bolivianos, etc.) De qq maneira, ainda que isso seja resultado de uma configuração real, não há dúvida de que acaba por ter uma influência importante no modo como nos vemos, no modo como encaramos nossa colonização portuguesa (que de fato foi bastante diferente da espanhola), no que somos hoje e, por conseqüência, na nossa latinidade.

Ainda assim sinto falta desse sentimento de unidade latina que parece ligar os povos hispanófonos da América. Sinto falta e adoraria que ele fosse mesmo mais forte. Sabe o que eu queria? Que a classe média e a classe alta tivessem orgulho de ser brasileiros. E que todos os brasileiros tivessem orgulho de ser latinoamericanos.

Ah, é. Eu vi Diários de Motocicleta ontem, tá?

22.10.09
Dê um Up na sua vida

Tem alguém que ainda não foi ver Up? Tem??? Eu já tô quase indo ver de novo!

Up é muito mais do que um desenho da Pixar, o que já não era pouco. É possivelmente o desenho mais bonito que eu já vi, e um dos filmes mais inspiradores e tocantes da minha vida! Os primeiros minutos do filme, em que se conta a vida de Carl Fredricksen, já era um curta suficientemente belo pra valer o ingresso, levando o casal na plateia às lágrimas (no meu caso, isso é até comum demais, mas o marido...).

Mas ainda viria muito mais. Em forma de desenho animável agradável pra crianças, o que vem é uma lição de vida tão simples para os adultos incautos que foram parar ali, simples como uma bofetada repleta de carinho. As reações de Carl Fredricksen são humanas e reais: o medo, o isolamento que a velhice e a tristeza trazem de bagagem, a falta de paciência com o menino Russell. Pero sín perder la ternura jamás! Carl é terno em suas fraquezas, ao lutar primeiro por seu sonho, sua casa, sua lembrança, seu velho amor. Seu apego às coisinhas pequenas e frágeis daquela casa voadora que tanto representa pra ele, que representa tudo o que ele teve de felicidade na vida, seus esforços pra manter-se ligado a esse passado feliz, essa recordação. Carl é tão gente quanto eu e você.



E se você for ao cinema com seu grande amor, segure bem firme na mão dele. Eu fiz isso. É no coração que a gente guarda as lembranças e o amor. Não sobre a lareira. E sempre dá pra ser feliz.

p.s.1: Tem um artigo bacana sobre esse filme no Diário do Pará, apesar da enormidade de erros de ortografia.

p.s.2: A voz de Carl é do Chico Anysio. Um primor.

18.10.09
No Garfield de hoje não tem Garfield
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Uma coisa tão í­ntima...




"Quando eu ouço alguém suspirar 'A vida é dura', eu sempre sou tentado a perguntar, 'Comparado a quê?'"

Sydney J. Harris



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